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terça-feira, 07 de novembro de 2017
Boomera na Azul Magazine – Ed. Novembro!

Boomera na Azul Magazine – Ed. Novembro!

Tudo se transforma

Em apenas seis anos de existência a Boomera, criada pelo paulistano Guilherme Brammer, tornou-se referência no mercado de reciclagem e logística reversa, com quase 400 clientes e projeção de faturamento de R$ 100 milhões em 2020.

 

FOTO DE GUILHERME ZAUITH

 

Após anos trabalhando em grandes corporações com foco em embalagens, o engenheiro paulistano Guilherme Brammer, 40 anos, decidiu apostar na sustentabilidade. Em 2011, largou emprego e vida estável para criar um modelo de negócio em que o lixo gerado pelas indústrias viraria matéria– prima. A jogada foi certeira. Hoje a empresa de engenharia circular e logística reversa Boomera atende 400 clientes, transformando cápsulas de café e até fraldas sujas em novos produtos.

“Quem inventou as palavras lixo e desperdício foi o ser humano”, defende Brammer. “A lógica da indústria é fazer coisas que quebrem rápido para vender mais, ignorando o impacto ambiental. A Boomera nasceu para fazer a indústria repensar esse modelo”. Entre seus clientes estão gigantes como Procter & Gamble, Nestlé, Unilever, BRF, Natura e PepsiCo, além de empresas de médio e pequeno portes – em um ciclo que envolve coleta, pesquisa e transformação.

Fundada em 2011, a Boomera alcançou em seis anos o faturamento de R$ 20 milhões – e a projeção para 2020 é de R$ 100 milhões. Os primeiros passos na área de inovação em reciclagem, no entanto, foram desafiadores. Formado em engenharia de materiais, Brammer trabalhou em grandes empresas como Bemis, Celulose Irani, CSN e Vitopel. Em 2010, foi convidado para ser o presidente no Brasil da americana TerraCycle, especializada em soluções para resíduos de difícil reciclabilidade. Largou a estabilidade do antigo emprego, mas a parceria não vingou.

 

* é um conceito que propõe a utilização da matéria-prima já disponível para a produção de novos itens a partir da reciclagem, devolvendo ao ciclo produtivo qualquer tipo de resíduo. ** é um conjunto de procedimentos para viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento ou outra destinação ambientalmente adequada.

 

De volta ao mercado em 2011, o empresário apresentou em um seminário sua ideia de reciclagem envolvendo catadores de lixo, pesquisa e tecnologia. Por sorte, uma diretora da Procter & Gamble estava na plateia e se interessou. Foi assim que surgiu a WiseWaste, transformando embalagens de xampu em displays para lojas e supermercados. “Brinco que a P&G foi minha investidora-anjo”.

No início, tudo era na base da terceirização. “Tudo no gogó! ‘Você me empresta a sua máquina? Você tem espaço ocioso na sua fábrica?’”, relembra Brammer. Com a ajuda de um ex-professor, ele conseguiu um espaço no campus da Universidade Mackenzie, em São Paulo, para pesquisas laboratoriais. Foi assim que a empresa nasceu. “Ninguém tem a solução sozinho. Inovação é trabalhar em rede. Então construímos essa rede de cooperativas, cientistas, universidades e parceiros industriais.”

A Política Nacional de Resíduos Sólidos, promulgada em 2010, impulsionou os negócios. A lei repassou aos fabricantes a responsabilidade sobre o descarte de seus produtos e fez com que muitas indústrias batessem à porta do empresário. “De lá para cá a gente vive uma gincana diária. Tem dia que a gente fala de fralda suja, no outro o assunto é embalagem de salgadinho ou lodo industrial de fábrica de papel. Cada dia é um monstrinho diferente que aparece”, brinca.

 

 

Um dos cases de sucesso é uma parceria com a Dolce Gusto que transforma cápsulas de café usadas em suportes para as próprias cápsulas e vasinhos para o plantio de café. Mais de 300 cooperativas de reciclagem auxiliam na coleta da sucata que é transformada em resina e vira acessório renovável à venda no site da Dolce Gusto. A mesma lógica se aplica a diversos materiais. A tecnologia criada para reciclar fraldas sujas, por exemplo, já rendeu uma patente. “Desenvolvemos uma solução para limpar e esterilizar as fraldas. Depois esse material vai para a nossa fábrica e podemos fazer itens como lixeiras, cabides, banquetas etc.”, orgulha-se Brammer.

Com o aumento exponencial dos clientes, a própria WiseWaste teve de se transformar. O engenheiro aeronáutico Luiz Butti se associou ao negócio e em maio eles adquiriram uma fábrica de lonas impermeáveis em Cambé, no interior do Paraná, com 36 mil m². A WiseWaste virou Boomera e deu adeus à terceirização do processo industrial. Agora a empresa é responsável por todo o ciclo da reciclagem: da coordenação dos catadores à pesquisa laboratorial, do desenvolvimento de resinas à fabricação de produtos renováveis.

O empresário lembra que começou sozinho em uma sobreloja em Moema, na Zona Sul de São Paulo, e hoje tem 125 funcionários, fora os 5 mil colaboradores nas cooperativas. O sonho de criar novos produtos unindo lixo e tecnologia se concretizou. “Para mim, é incrível fazer parte disso. Pela plenitude de você passar pelo planeta e deixar um legado”, afirma Brammer. E o legado vai além da questão ambiental: o empresário conseguiu provar com números que a sustentabilidade é um bom negócio.

125
funcionários trabalham no escritório e no laboratório, em São Paulo, e na fábrica em Cambé (PR)
400
empresas são clientes da Boomera
R$ 20 milhões
é a projeção de faturamento em 2017. Em 2020 é de R$ 100 milhões
300
cooperativas de catadores, de Porto Alegre a Manaus, trabalham em parceria com a empresa